A fare un suono più dolce che il clarinetto.

Segunda-feira, Outubro 20, 2008


Tchaikovsky

Antes eu tinha descoberto o Youtube como repositório de pérolas do jazz, do bebop ao cool, especialmente vídeos antigos. Agora me mostraram o Youtube repositório de música erudita, particularmente a orquestral, com grandes mestres como Bernstein e Rostropovich.

Então, taí a 5ª Sinfonia de Tchaikovsky (op. 64), maravilhosa, inteira e regida por Leonard Bernstein. Os vídeos não foram separados por movimentos (o primeiro movimento, por exemplo, só termina na segunda parte):

Primeira parte
Segunda parte
Terceira parte
Quarta parte
Quinta parte
Sexta parte

Os movimentos são:

1. Andante — Allegro con anima
2. Andante cantabile, con alcuna licenza
3. Valse: Allegro moderato
4. Andante maestoso— Allegro vivace

Tchaikovsky é mestre em começar as músicas ou os movimentos com boas surpresas. No primeiro movimento é o solo da clarineta. No segundo, o da trompa, com uma harmonia mudando de cor no fim da frase (é, músicas boas tem frases que mudam de cor).

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Não sabia que o Visconde do Rio Branco, pai do Barão do Rio Branco, tocava violino na orquestra. Reparem nas costeletas no violinista aos 3'46" da quarta parte, dignas e cultivadas suíças de um visconde do século XIX.

Sábado, Outubro 18, 2008


Dulce et decorum est pro patria mori¹

¹ "É doce e honroso morrer pela pátria": poema de Wilfred Owen, retirado de versos de Horácio.

Wilfred Owen, um jovem poeta inglês do começo do século XX, não conseguia escrever poemas sobre a guerra. Dizia que a guerra era demasiada terrível e horrenda para ser colocada num poema. Enquanto servia no exército inglês no front da França durante a Primeira Guerra Mundial, Owen sofreu um estresse traumático desenvolvido no campo de batalha e foi afastado para um hospital militar na Escócia, onde conheceu outro poeta, Siegfried Sassoon, já famoso na época.

Sassoon foi oficialmente diagnosticado com neurastenia, mas acredita-se que ele não desenvolvera nenhum tipo de loucura, trauma ou qualquer outro distúrbio que surgia entre os soldados que passavam semanas, meses entrincheirados, fugindo de bombas e com o medo diário da morte. A doença dele era o pacifismo. Indignado com o belicismo, Sassoon lançou no rio Mersey a Cruz Militar que ganhara por um ato de loucura heróica. Owen era grande fã de Sassoon - ele sim, escrevia poemas sobre a guerra - e diz-se que passou a escrever sobre o tema da guerra por influência de seu ídolo.

Owen foi morto em batalha em novembro de 1918, exatamente uma semana antes da assinatura do armistício. Tinha vinte e cinco anos.

A guerra causa fascínio porque tem uma força que sobrepassa aqueles que a geram. Owen e tantos outros que aparecem nas fotos em tempos de guerra são uma juventude condenada, como na famosa obra daquele poeta: são rostos precocemente amadurecidos, curtidos pelo macabro, abalroados pela estupidez humana.

O vídeo abaixo é o trecho do filme "Memphis Belle: a Fortaleza Voadora". A tripulação do Memphis Belle foi a primeira dentre as dos bombardeiros B-17 a completar 25 missões durante a Segunda Guerra Mundial e voltar para casa intacta.



O Sgt. Danny "Danny Boy" Daly, operador de rádio (na vida real, Sgt. Robert Hanson), recita um poema do W.B. Yeats, famoso poeta irlandês morto em 1939 e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1923. O poema (com os versos sobre condecorações irlandesas retirados no filme) chama-se "An Irish Airman Foresees His Death":

I know that I shall meet my fate
Somewhere among in the clouds above
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love
My country is Kiltartan’s Cross
My countrymen, Kiltartan’s poor
No likely end could bring them loss
or make them happier than before
Nor law, nor duty bade me fight
Nor public men, nor cheering crowds
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult into the clouds
I balanced all, brought all to mind
The years to come seemed waste of breath
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death



Tradução da versão brasileira do filme:

Sei que meu destino devo encontrar
e entre as nuvens acontecer
Com quem não odeio, vou lutar
A quem não amo, vou proteger
Nem a lei nem o dever me levam à malíc
nem homens públicos nem as multidões
Um impulso solitário de delícia
veio a esse tumulto em aviões
Eu pensei tudo, tudo foi pensado
Os anos vindouros são desperdício de sorte
Desperdício de sorte os anos passados
Balanceando com esta vida, esta morte.



Escrever a angústia da guerra, ou qualquer angústia, é soprá-la como uma brasa. Um desperdício de sorte, balanço de vida e morte.

Quinta-feira, Outubro 16, 2008


Teve uma vontade imensa, surgida do nada, de dizer “eu te amo” para alguém. Que gritasse num travesseiro foi a primeira idéia, mas sabia que não ia funcionar. Travesseiros podem ser bons amigos às vezes, porém esta não era uma vez; o “eu te amo” tinha de ser para quem ouvisse, entendesse e não fosse da família. Vivo e lépido.

Colocou a roupa e olhou-se no espelho: sentiu-se bonita, um excelente e raro sinal. Estava um pouco atrasada e saiu logo, cruzando a rua com “eu te amo” na cabeça. Resistiu em dizê-lo para a primeira pessoa que visse, gesto potencialmente mal-interpretado. Ela andava olhando para os lados procurando brechas, oportunidades. A manhã clara fazia-se cedo, cheia, lotada de eu-te-amos possíveis, nunca suficientes.

Encontrou um rosto conhecido na parada de ônibus.

- Oi. Bom dia!

- Dia. Está bonita hoje.

- Brigada – disse, confirmando-se com declarações de amor inauditas.

Olhou tão fundo nos olhos dele que ele até se assustou. Eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo.

- A gente se conhece a muito tempo, né? – soltou ela, sem saber direito como começar. Ele riu um pouquinho.

- Você é uma amigona.

Tem de ser assim, um tiro. Rápido. Direto.

- É que eu queria dizer... eu te amo.

Susto.

- É... que lindo de você. Eu também te amo – ele respondeu, meio sem graça.

Ela riu, um pouco desapontada. O desapontamento logo passou, entretanto, ao ver que tinha dito eu te amo e que fora compreendida. Ficou feliz.

Eu-te-amos nunca saem à toa, pensou antes de subir no ônibus.

Segunda-feira, Outubro 13, 2008


Declaro encerrada a temporada de concursos

E reaberta a temporada deste blog. Salvo uma superveniente conjuntura favorável para eu fazer a prova do IPEA, não vou mais fazer provas este ano. Chega. Acabou.

A literatura de fim-de-semana deste relapso escritor agradece. Este blog também. Com menos horas de estudo, terei mais desafios na prosa (e não na prova) -- putz, como é difícil escrever prosa! -- e mais conteúdo neste site.

Nas últimas semanas vi e ouvi tanta coisa boa no Youtube que nem sei o que coloco primeiro. Agora que eu tenho internet com conexão decente (e não descente, como a anterior), meus horizontes ampliaram-se deveras.

Só para não passar em branco, ou só em letras, uma pequena descoberta em boa resolução. O quadro "O chamado de Mateus", de Caravaggio (clique para ampliar).


Como toda boa pintura barroca (e como gosto de pintura barroca!), cheia de símbolos e gestos. Vai fazendo aí uma lista do que descobre nas expressões, luzes, sombras e posições que depois eu comento um pouco da pintura.

Terça-feira, Setembro 30, 2008


“Ué, se a música ‘encaixa’, qual é o problema com ela? Quer dizer, ela está lá, você poderia tentar tocar. Como você disse, ela tem alguns temas que você já estava pensando, talvez só precisava mesmo de um descanso, de um momento, para que a música saísse para o papel. Acho que você devia encontrar mais três pessoas e tocar.” Bernardo fez uma pausa. Sofia pensou que ele queria despertar mais dramatismo naquela cena misteriosa, na qual um acontecimento insólito devia invariavelmente ser aceito e fazer parte dos fatos, da história, mas não; ele queria mesmo é olhar para ela, tirar o foco da amiga daquela torrada destroçada pelo nervosismo e pelo inimaginável, fazê-la prestar atenção nele, sem desviar-se.

“Chame quem você tinha em mente e monte um quarteto, oras”, continuou Bernardo. “Se você não consegue explicar essa música, pense nela como um dom... uma dádiva, sei lá.”

Ela olhou para Bernardo, suspensa.

Uma “dádiva” era um pouco demais. O momento dispensava tamanha solenidade.

“E o que você acha que eu vou fazer, Bê?”, disse Sofia, traçando no rosto um inesperado sorriso jocoso, quase infantil. “Eu sou musicista. Não jogo música fora, nem que ela tivesse caído na minha cabeça com um meteoro.”



Este é o trecho de um conto que estou escrevendo há algumas semanas. Aventurar-me pela prosa é mais desafiador do que imaginei, e olha que imagino muitos desafios. Depois de uma longa pausa (concursos, ah, concursos), já tenho o final. O conto sairá em breve! Aguarde e confie.

Claro que ia ter música no meio da história.

Sábado, Setembro 13, 2008


Recitando



Eu, na primeira recitação pública, durante a Poemação no Rauyela, um bistrô na Asa Sul. Talvez seria melhor ter filmado, mas não tenho filmadora (a da câmera fotográfica é só para dizer que filma). De qualquer forma é uma boa lembrança.

Já comentaram do meu cabelo (tudo bem, vou cortar esta semana) e da vela em cima do projetor digital, que é algo contrastante -- e meio burro: vai que cai cera naquilo. Os camaradas sentados na mesa em primeiro plano são poetas de Brasília. Todos prestando atenção direitinho!

Terça-feira, Setembro 09, 2008


Inspiração súbita

Cachos pra você são só cabelos.
Cachos, para mim, o imaginado.


A poesia não é luto, nem luta
nem clichê, nem tiro, repente,
nem fumaça, refugo de gente
A poesia na boca não é bruta
A poesia na boca é fruta
suculenta, é doce e sói fruir
um desejo somente, ardente, inconseqüente,
doce, decente de, de repente, sumir.


Esse é o trecho de um dos poemas que eu ia recitar na sexta-feira passada, no Café Martinica, em um dos eventos da BIP.

(Se eu fosse maldoso, diria que "martinica" rima com muita coisa nojenta e engraçada. Mas não vou fazer isso. O coitado do café não tem culpa).

Estava uma festa bonita, mas com tempo de menos (ou gente ou poesia demais) para poucos poetas. E acabei não lendo nada a não ser sozinho, para mim mesmo, numa mesa que demorou uma hora e meia para aparecer.

Ah, e fui "obrigado" a ouvir o que talvez seja o poema mais tosco da história da humanidade. Pela segunda vez. Depois conversei com o camarada autor da façanha (não me pergunte por quê) e ele tinha jeito de doido. Claro.

Mas antes, na quinta-feira, o evento rendeu. Li e gostei. A foto eu posto depois.

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